Pessoas atingidas e Procurador da República participam de Cine Debate sobre o documentário “Os Caminhos da Escuta”, produzido pela ATI Cáritas Diocesana de Itabira 

O Cine Debate promoveu um reencontro das pessoas atingidas com agentes que atuaram no processo de reconhecimento e reparação nos Territórios de Rio Casca e Adjacências e do Parque Estadual do Rio Doce e sua Zona de Amortecimento, entre eles o Procurador da República e ex-integrante da Força Tarefa do Rio Doce, Dr. Helder Magno

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A ATI prestada pela Cáritas Diocesana de Itabira promoveu, no dia 10 de março, o Cine Debate - diálogo sobre o documentário produzido pela ATI “Os Caminhos da Escuta”. A atividade, em formato virtual, foi um reencontro entre as pessoas atingidas e agentes que atuaram no processo de organização e de luta dessas comunidades, e que também fortaleceram a importância da  atuação da Assessoria Técnica Independente nos Territórios de Rio Casca e Adjacências (Território 01) e do Parque Estadual Rio Doce e sua Zona de Amortecimento (Território 02). 

O documentário, lançado no dia 2 de março, mostra os impactos e desdobramentos do rompimento da barragem de Fundão nesses territórios e mostra como foi o processo de reconhecimento e de reivindicação por direitos das pessoas atingidas que neles vivem. Durante o encontro, foram exibidos trechos do filme, comentados por quem vivenciou e ainda vivencia os desafios da luta por uma reparação justa e digna. 

Clique aqui para assistir ao filme na íntegra

“Ter a possibilidade de um espaço como esse em que, mais de dez anos após o rompimento, as pessoas atingidas puderam olhar para a trajetória de luta por visibilidade, junto com atores tão importantes para a organização delas e que caminharam muito nesse chão antes de nós levando informação, auxiliando as comunidades a entenderem mais sobre seus danos  e buscarem por seus direitos é, não só gratificante, mas mostra o poder das pessoas atingidas quando estão organizadas.” destaca Tainara Torres, coordenadora de comunicação na ATI Cáritas Diocesana de Itabira. 

 

Vozes que se somaram na busca pela garantia de direitos nos territórios que antes eram invisibilizados

Quando houve o rompimento, a gente viu que vários peixes morreram. Aí a gente viu que alguma coisa de errado tinha com a água. E o nosso [poço] artesiano aqui é muito próximo do Rio Doce. Quando Lucimere [antes da chegada da ATI] chegou aqui em casa, ela pediu um copo d’água. Daí, eu perguntei se ela tinha coragem de tomar aquela água. Não foi um desafio que eu fiz, mas era um risco mesmo, porque a gente sabia que algo de muito sério tinha acontecido com o rio”, disse Maria de Fátima Neves, atingida da comunidade Lagoa das Palmeiras, em São José do Goiabal. 

A gente chegava nas comunidades e a reclamação inicial é essa questão séria que é a questão da água. Dez anos se passaram e a água continua, infelizmente, do mesmo jeito em várias comunidades. A gente chegou nas comunidades para tentar entender o que aconteceu e como que cada comunidade estava vivendo ou sobrevivendo frente a esse crime tão forte na vida do povo. Antes as reuniões eram nos terreiros, nas casas. O povo levando a sua comida, a partilha era muito grande. Eu achava muito bonito era isso. Acabava uma reunião, sempre tinha uma partilha”, lembrou Lucimere Leão, coordenadora colegiada da ATI Cáritas Diocesana de Itabira.  

A preocupação com a situação da água e os demais danos ambientais está presente nos depoimentos das pessoas atingidas no documentário “Os Caminhos da Escuta”. Uma memória que foi novamente trazida no Cine Debate, através da participação de quem viu na luta pelo reconhecimento dos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão um caminho para a organização coletiva das comunidades. 

Nada nesse mundo vem por acaso. Na verdade, nada repara vidas, mas esse desastre veio para trazer uma consciência ambiental que a gente não tinha antes. Hoje nós sabemos verdadeiramente o que o rio representava pra gente e o que a gente sente por conta desse desastre”, disse José Maria Lalau, atingido de São José do Goiabal. 

A gente não sabia de nada. Nossa ideia era totalmente errônea em relação a essa questão do atingido. A gente achava que não era. Quem nos despertou para essa ideia de que seríamos atingidos foram as reuniões, onde a gente começou a compreender o processo. Porque esse despertar coletivo de consciência é a senha pra gente colher mais frutos”, disse Nazaré Vasconcelos, atingida de São José do Goiabal. 

 

A luta pela garantia dos direitos das pessoas atingidas segue após a chegada da ATI nos Territórios 01 e 02 

No Cine Debate, os participantes também lembraram do reconhecimento dos atingidos de Territórios de Rio Casca e Adjacências e do Parque Estadual do Rio Doce e sua Zona de Amortecimento dentro do processo de reparação, especialmente a partir da chegada da Assessoria Técnica Independente, com a efetivação do acesso à informação qualificada pelas pessoas atingidas. 

Antes do acompanhamento da ATI, éramos como se fosse uma roupa cara, que ficava na vitrine, empoeirando. Hoje nossa comunidade consegue impor respeito. Nós sabemos do que estamos falando, nós participamos, prestamos atenção em cada fala quando a gente está em uma reunião. Hoje nós temos consciência e temos o respeito de todos que antes tratavam a gente como um qualquer. É muito bom quando você participa, de cada reunião que você participa, você sai com um conhecimento a mais e isso é graças à Assessoria”, disse Marlene Imaculada Carlos (Lelena), atingida da comunidade Córrego do Celeste, em Marliéria. 

“Se não fosse pela ATI, nós não estaríamos nessa caminhada. Nós saímos do sistema cinzento. As ATIs só deveriam sair daqui quando o rio estiver limpo”, apontou Silvio Soares, atingido da comunidade da Pirraça, em São Pedro dos Ferros. 

O encontro também teve a participação do Dr. Helder Magno, Procurador Federal e ex-integrante da Força Tarefa do Caso Rio Doce. Em sua fala, recordou da atuação do Ministério Público Federal junto às comunidades dos Territórios 01 e 02, ainda quando não eram reconhecidos enquanto atingidos. Além disso, reforçou a importância da Assessoria Técnica para a luta pela garantia de direitos das pessoas atingidas.  

“É importante a gente ter a clareza, que mesmo a pessoa não sabendo ler ou escrever, sabe como cuidar do rio. Sabem como cuidar de uma horta, de um jardim. Têm esse aprendizado e nos ensina. Essas pessoas, que são de boa vontade, de boa fé, que são vocês. A ideia da Assessoria Técnica é trazer o conhecimento da forma como a empresa sabe e traduzir a fala da empresa para vocês. Ao mesmo tempo, também traduzir as falas de vocês. O que acho que é importante para que vocês possam tomar decisões”, reforçou o Dr. Helder Magno

O papel da Assessoria Técnica também foi pontuado nas falas da coordenação colegiada da ATI Cáritas Diocesana de Itabira. Para Geisiane Lima, a união e a participação efetiva fortalece a caminhada das pessoas atingidas pela reparação. 

É fundamental que esse processo continue sendo construído com união, com participação ativa e, nesse sentido, a Assessoria Técnica tem exercido um papel muito importante, que é contribuir para que as pessoas atingidas tenham acesso à informação. Uma informação confiável, qualificada, acessível, e a gente tem trabalhado para construir esse caminho, para que todas as pessoas atingidas tenham acesso a esse direito e possam participar”, afirmou Geisiane. 

O povo vai construindo sua caminhada, sua história. Mas é sempre bom e importante ter representantes das Instituições de Justiça caminhando ao lado do povo”, afirmou Ana Paula Alves sobre a importância da atuação das Instituições de Justiça junto das pessoas atingidas. 

A produção de um material audiovisual é uma das estratégias de comunicação que nós temos utilizado com frequência para garantir a participação, a partilha de conhecimento e a promoção da reflexão entre as pessoas atingidas. O documentário, por exemplo, ajuda a entenderem melhor sobre  as complexidades que existiram ao longo desses anos, principalmente antes da chegada da Assessoria, e também mostra o empoderamento que elas vêm conquistando nesses mais de dois anos de atuação da ATI.” , finalizou Tainara. 

O Cine Debate sobre o documentário “Os Caminhos da Escuta” teve a participação de 37 pessoas. O filme está disponível no canal da ATI Cáritas Diocesana de Itabira no YouTube. A proposta da ATI é promover, ao longo dos próximos meses, sessões para exibição do documentário nas comunidades atingidas dos Territórios de Rio Casca e Adjacências e do Parque Estadual do Rio Doce e sua Zona de Amortecimento. 

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