Este ano, a Romaria lembrou os 100 anos da imagem de Nossa Senhora da Saúde e os 82 anos de criação do Parque. O encontro reuniu centenas de romeiras e romeiras em missa campal presidida pelo Arcebispo de Mariana, Dom Airton José dos Santos

No último sábado, dia 11 de julho, ocorreu mais uma edição da Romaria Ecológica Nossa Senhora da Saúde, no Parque Estadual do Rio Doce (PERD). O encontro deste ano lembrou os 100 anos da imagem da santa padroeira do Parque, trazida pelo Bispo Dom Helvécio, e também os 82 anos de criação da unidade de conservação, a primeira instituída pelo estado de Minas Gerais. O encontro teve a celebração de uma missa campal presidida pelo Arcebispo de Mariana, Dom Airton José dos Santos.
Mais uma vez a Romaria manteve viva sua tradição, ao rememorar as cavalgadas do Bispo de Mariana, Dom Helvécio, criador do PERD. Os(as) romeiros(as) vindos de várias cidades do entorno do PERD, e também de outros territórios do Vale do Rio Doce, foram acolhidos com um café da manhã partilhado. A recepção contou com a apresentação dos grupos de congado Moçambique Nossa Senhora do Rosário, de Timóteo, e também do Congado Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, de Antônio Dias. Em seguida, caminharam até o espaço Memorial Dom Helvécio, onde aguardaram a chegada da imagem de Nossa Senhora da Saúde.
“A Romaria é um momento de comemoração do aniversário do Parque, que completa 82 anos agora, em 14 de julho, e sempre acontece no sábado mais próximo. A Romaria retornou quando o Parque fez 50 anos, em 1994. Onde eles recuperaram essa imagem de Nossa Senhora da Saúde. Teve uma parada, no período da pandemia, retornando em 2024. Os cavaleiros se mobilizaram e fizeram o trajeto de Dom Helvécio, exatamente do jeito que ele fez, trazendo a imagem e respeitando essa tradição“, explicou Bruna Morais Horta, brigadista florestal no PERD.
Atualmente, a imagem da santa permanece o ano todo na capela em sua homenagem, no Memorial Dom Helvécio, no PERD, e sai em peregrinação apenas nas semanas que antecedem à Romaria, passando por comunidades rurais de Marliéria e Dionísio, onde são celebradas missas.
Os cavaleiros e as cavaleiras que conduziram a imagem da santa, saíram da paróquia de Marliéria. Ao longo do caminho, demais cavaleiros(as) de outras comunidades do entorno do Parque, se juntaram à Romaria. Na chegada ao PERD, ao som do badalar do sino da capela, fizeram a entrega da imagem de Nossa Senhora da Saúde às mãos de Dom Airton.

A imagem de Nossa Senhora da Saúde chegou ao território, onde hoje é o Parque Estadual do Rio Doce, em 1926, trazida pelo Bispo Dom Helvécio. “A imagem foi trazida como gesto para fortalecer a fé e a devoção do povo, em um momento difícil, que enfrentavam uma epidemia“, lembrou o Padre Anderson Ferreira, pároco de Marliéria e Jaguaraçu, durante a missa campal.
Dom Airton destacou a importância da fé para a preservação ambiental.”O Papa Francisco lembrava ‘cuidar da Casa Comum é cuidar do ser humano’, porque não adianta a Casa Comum estar bonita e o ser humano estar degradado. Tudo foi feito para ele e sem ele, tudo acaba sendo desviado do seu sentido. Então, por isso que às vezes degradam o meio ambiente, porque não levam em conta a pessoa humana, a pessoa que mais sofre, a pessoa que mais precisa “, disse Dom Airton José dos Santos, Arcebispo de Mariana.
Após a realização da missa campal, foi servido um almoço coletivo, onde os(as) romeiros(as) tiveram mais um momento de reencontro e intercâmbio.
A perseverança e a fé de Romeiros e romeiras mantém viva uma tradição de décadas
A tradição da cavalgada transcende gerações e mantém vivo o cortejo religioso, como representação de fé e resistência para as comunidades do entorno do Parque Estadual do Rio Doce (PERD). “Desde criança eu participo dessa romaria. É uma tradição do meu pai, Joaquim Horta da Silva, já falecido. Durante todos esses anos participamos, vindo a cavalo. A primeira Romaria que participei acho que tem mais de 40 anos. A gente tem aquela fé, de vir trazendo a imagem de Nossa Senhora da Saúde, a qual o Bispo Dom Helvécio trouxe há 100 anos atrás. É muita emoção. Eu toco o berrante, fazendo o papel que era de meu pai, toda a vida. E estamos passando a tradição pra família“, disse Ronaldo de Assis Horta, de Marliéria.
“Eu vejo essa atividade muito importante para apreciar o que a natureza tem de melhor e, também, interagir com as pessoas. Vejo isso como um ponto muito importante para as comunidades do entorno, estar juntos“, disse Irene de Souza Reis Silva, de Cava Grande, em Marliéria.
“É a primeira vez que estou vindo e estou achando que tudo está sendo ótimo, conhecendo novas pessoas. Essa Romaria é muito importante, porque isso aqui serve de exemplo, mesmo para nós, mas para os jovens. E essa oportunidade que estamos tendo, dá pra passar de geração em geração“, disse a romeira Angela Lúcia Gomes Boas, da comunidade de Messias Gomes, em São José do Goiabal.
“A minha primeira relação com o Parque foi a Romaria. A minha melhor lembrança quando criança. Minha primeira Romaria foi em 1999, e eu tinha 4 anos. Isso é entender o que é o Parque, a importância do Parque. Essa reexistência desse processo e resistência também, de resistir”, disse Bruna Horta.
Intercâmbio entre romeiros(as) e pessoas atingidas fortalece a memória e a resistência ambiental do PERD
Em seguida, próximo ao mirante do PERD, um dos principais pontos de visitação da unidade de conservação, ocorreu uma roda de diálogo, entre romeiros(as) e pessoas atingidas dos territórios de Rio Casca e Adjacências (Território 01), do Parque Estadual do Rio Doce e sua Zona de Amortecimento (Território 02) e de Governador Valadares e Alpercata (Território 04), onde funcionários do PERD contaram um pouco da história e explicaram a importância ambiental desta unidade de conservação.
“Nossa, fiquei muito comovida e agradecida pelo convite. Eu acho muito bacana as pessoas, num espaço como esse, tendo a comunicativa com outras pessoas diferentes, dá pra somar e ter conhecimento também. Isso nos fortalece”, disse a romeira Nilza Porfiria Martins Silva, do quilombo do Brejal, em São Pedro dos Ferros.
“Um lugar lindo, de uma reserva ecológica, ambiental bastante preservada. Como começou lá com os romeiros, a caminhada, de você ver, de você participar, e de compartilhar com outras pessoas também. Eu diria que você só encontra isso numa romaria. A questão da vivência histórica, da vivência da fé”, disse Marilma Barbosa Cavalcante Chagas, de Governador Valadares.
Ao todo, a Romaria Ecológica Nossa Senhora da Saúde teve cerca de 600 participantes, entre cavaleiros(as), romeiros(as), autoridades políticas, presbíteros e, também, pessoas atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão de territórios de Rio Casca e Adjacências, do Parque Estadual do Rio Doce e sua Zona de Amortecimento e de Governador Valadares e Alpercata, em uma ação de intercâmbio. As Assessorias Técnicas Independentes Cáritas Diocesana de Itabira e Cáritas Diocesana de Governador Valadares apoiaram a realização da Romaria.



